Estudos e Pesquisas Educacionais

Gestão escolar e qualidade

Fernando Luiz Abrucio
Fundação Getulio Vargas

=== PARTE 1 ====

Uma pergunta básica ancorou a realização deste estudo: no contexto brasileiro, gestão faz diferença no desempenho das escolas e, por conseguinte, de seus alunos? Com base neste questionamento, foram analisadas dez escolas públicas paulistas, divididas em cinco pares. A seleção dos casos foi feita por um modelo estatístico de escolha que permitia a comparação entre duas unidades escolares com alunado em situação socioeconômica similar, mas com uma performance acadêmica diferenciada, tomando como base a Prova Brasil de 2007. Os resultados da pesquisa revelam como o modelo de gestão e, sobretudo, o papel dos principais gestores têm um impacto significativo na aprendizagem e mesmo no ambiente educacional.

Quatro fatores motivaram a pesquisa. Em primeiro lugar, não há muitos estudos no Brasil sobre como a gestão das escolas afeta os resultados acadêmicos dos alunos. A literatura ainda é pequena quando comparada com a produção internacional sobre o assunto. Obviamente que o presente estudo não pretendeu resolver tal lacuna, mas seu objetivo foi acrescentar mais conhecimento, não só em termo de respostas, como também quanto às perguntas que devem orientar futuros trabalhos sobre gestão escolar.

A segunda motivação é de origem metodológica. Neste aspecto, os trabalhos existentes sobre o assunto trazem três lacunas que justificam a presente pesquisa. A primeira delas se refere à capacidade de combinar a visão micro com a macro. Neste sentido, de um lado existe um número razoável de estudos de caso que relatam bem a diversidade de fatores que atuam sobre o cotidiano escolar brasileiro, mas que não têm um referencial geral e comparativo. De outro lado, há investigações que se utilizam de abordagem estatística para entender, geralmente, a relação entre desempenho dos alunos e características das escolas. Estes textos conseguem perceber a importância e dar um sentido explicativo mais amplo à gestão, contudo, eles não observam empiricamente o funcionamento das unidades escolares, e, desse modo, não captam os mecanismos que conformam a lógica dos bons gestores educacionais.

Como resposta a estas insuficiências, partiu-se aqui de uma metodologia que combina a perspectiva quantitativa com a qualitativa, para tentar ter um sentido generalizante e, ao mesmo tempo, conhecer como se dá a formação dos mecanismos que geram as causas da eficácia escolar. Dito de outro modo: uma coisa importante é descobrir as conexões estatísticas entre gestão e desempenho escolar; outra, tão relevante quanto, é entender como se produz a gestão que melhora os resultados acadêmicos das escolas e de seus alunos.

Também há outro problema metodológico nas pesquisas em gestão escolar que acontece no Brasil, mas que não é exclusividade do país. Quase a totalidade dos trabalhos qualitativos sobre este assunto, envolvendo estudos de caso com ou sem etnografia, baseia-se na busca das melhores práticas. Tais estudos são importantes para encontrar determinadas ações ou políticas que deram certo em algum lugar, procurando depois disseminar esta prática. Porém, quando o estudo enfoca apenas as "escolas boas", não é possível conhecer plenamente o que poderá modificar as "escolas fracas". Particularmente, não se tem uma dimensão generalizante com esta abordagem, tampouco se descobre qual é o peso do contexto no desempenho destas instituições.

Neste sentido, a pesquisa por nós realizada procurou estudar unidades escolares que fugissem dos extremos no plano dos resultados e que fossem similares em termos contextuais. Dessa maneira, os casos poderiam ser comparados, e desta comparação se poderia descobrir o que produz a diferença no que tange aos sucessos e fracassos relativos àquela realidade. Nos termos de Paul Pierson (2000), este método permite analisar a formação dos mecanismos que geram os resultados mais amplos da Educação.

Existe, ainda, uma terceira lacuna metodológica nos estudos qualitativos realizados no Brasil. Geralmente, estes trabalhos ou fazem uma análise das instituições educacionais, daí retirando consequências para o funcionamento das escolas, ou então fazem investigações aprofundadas sobre uma ou mais unidades de ensino, mas não interligam isso com o sistema escolar. A presente pesquisa procurou sair desta dicotomia, estudando como a secretaria municipal e/ou estadual e a comunidade interagem com cada uma das escolas estudadas.

A terceira motivação para a realização deste trabalho relaciona-se com o objeto de estudo. Neste caso, duas dimensões estiveram presentes. A primeira e mais importante é a necessidade de entender melhor a figura do diretor escolar e dos gestores que trabalham com ele, tema também pouco estudado no país. Paralelamente a esta pesquisa, o Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope) fez sob encomenda da Fundação Victor Civita um survey nacional com diretores, buscando analisar suas opiniões e atitudes no que tange ao ambiente profissional e às questões relevantes da Educação. As respostas obtidas pela enquete ajudaram muito na reflexão sobre a pesquisa de campo relacionada com as dez escolas públicas paulistas.

Procurou-se, no entanto, ir além: com o acompanhamento etnográfico das unidades de ensino e de seu entorno comunitário e institucional, o objetivo foi ver "o diretor em ação" - ou, melhor, "os gestores escolares em ação". Desta maneira, pode-se perceber, na amplitude relativa da investigação, a complexa relação entre a fala e a prática dos principais comandantes das escolas. Pode-se perceber que o papel do diretor e de seus principais auxiliares nem sempre é o que eles desejariam que fosse, e que suas funções ainda precisam ser mais bem definidas.

Continuando no campo do objeto, a pesquisa escolheu municípios paulistas que não representassem os extremos da situação educacional. Nem os menores, cuja dimensão do problema deve ser bem menor, nem a cidade de São Paulo, cuja especificidade daria um viés à pesquisa, pois se trata de um município muito diferente dos demais. A motivação que nos levou a seguir esta linha foi a busca de casos mais próximos da maioria das municipalidades. Vale comentar que seria muito interessante estudar a capital numa outra oportunidade, utilizando o mesmo método de comparação, só que analisando dez escolas da própria cidade.

A quarta e última motivação vincula-se à realização de uma pesquisa aplicada, mas com diálogo com a produção acadêmica. A separação entre estas duas dimensões dificulta a produção de políticas públicas. Neste sentido, é interesse explícito desta pesquisa tentar intervir no debate público utilizando o ferramental científico.

Para dar conta destas motivações, foram definidos o método de seleção dos casos e os instrumentos da pesquisa, dois pontos que serão expostos mais adiante. Antes, cabe descrever a estrutura deste artigo. Depois desta introdução e da parte metodológica, serão discutidos os resultados alcançados, mostrando quais fatores comuns foram mais importantes para diferenciar a gestão entre as escolas. Também são destacadas, na sessão seguinte, questões estratégicas que pesam sobre o funcionamento das escolas. A seguir, ressalta-se o peso das redes de ensino no desempenho educacional, buscando entender o que causa esta variação. Ao final, são expostos quatro pontos: em primeiro lugar, o estudo é colocado numa perspectiva maior, revelando seu devido alcance; em segundo lugar, são retomados, resumidos e analisados os maiores problemas encontrados; em terceiro lugar, há o relato também dos avanços obtidos, no geral, pelas unidades escolares; e o artigo termina com a definição de quais seriam os pontos nevrálgicos para iniciar reformas e, assim, melhorar as políticas públicas educacionais.

Sumário

=== PARTE 2 ====
=== PARTE 3 ====
=== PARTE 4 ====
=== PARTE 5 ====
=== PARTE 6 ====
=== PARTE 7 ====

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