Como o professor vê a Educação

Instituto Paulo Montenegro1

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Como o professor avalia a condição docente

Se o professor mostra-se convicto e consciente de sua importância para a sociedade, o mesmo não ocorre quanto à sua opinião a respeito do que a sociedade pensa de sua profissão. Para 22% dos entrevistados, o docente não é devidamente valorizado pela sociedade. Para a metade dos ouvidos, a sociedade dá aos professores pouco ou nenhum valor.

Há, sem dúvida, uma questão de desprestígio social que provavelmente impacta na motivação, na valorização e no desempenho do professor.

A decupagem pelo fator idade e pela modalidade de ensino também auxilia na compreensão dos indicadores levantados. A visão crítica em relação ao desprestígio social é maior entre os que lecionam no Ensino Médio. Ao mesmo tempo, os professores mais maduros tendem a sentir-se menos afetados pelo baixo reconhecimento da profissão.

O reflexo dessa visão está no grau de satisfação com a profissão, como podemos observar no gráfico a seguir (Gráfico 1):

Gráfico 1. Sobre a profissão
Gráfico 1. Sobre a profissão

Embora, de maneira geral, os professores apresentem-se satisfeitos com sua profissão, esse índice é um pouco maior entre os da faixa etária mais jovem e entre aqueles que se dedicam a alunos das séries mais avançadas.

A fala espontânea dos professores sobre o que os motiva a exercer a profissão traduz uma boa dose de idealismo: para 53% dos entrevistados – de todas as idades e modalidades de ensino – é o amor à profissão que os leva a dar aulas. A possibilidade de contribuir para a sociedade, preparando as crianças e os jovens para o futuro e formando cidadãos, aparece também como estímulo importante no âmbito social (Tabela 16).

Tabela 16. Motivações do professor(menções 5% ou mais)
Tabela 16. Motivações do professor (menções 5% ou mais)

Não deixa de ser um alerta, porém, que os aspectos mais ligados ao retorno profissional, como salário, surjam apenas no antepenúltimo lugar. A questão da profissionalização efetiva da carreira do professor, especialmente no que tange às condições de exercício profissional, está em pauta no país.

Quando estimulados a refletir sobre diversos aspectos referentes ao exercício da profissão, os professores dos grandes centros urbanos brasileiros reafirmam a tendência de valorizar a flexibilidade de sua atuação em sala de aula, mostrando-se bastante satisfeitos com sua didática, formação e liberdade de atuação. Também declararam estar, em geral, contentes com o relacionamento com superiores, coordenadores e direção da escola (Tabela 17).

Tabela 17. Grau de satisfação (1 = muito insatisfeito a 10 = muito satisfeito)
Tabela 17. Grau de satisfação (1 = muito insatisfeito a 10 = muito satisfeito)

As principais deficiências estruturais da escola são atribuídas a pouca assistência dada ao aluno na área social e na de saúde, ao elevado número de alunos por sala, além da já detectada falta de preparo para a inclusão de alunos com necessidades especiais.

Essas opiniões refletem a demanda por uma maior integração das políticas públicas e da condição mais adequada de infraestrutura, enquanto apontam o descompromisso de uma parcela dos professores com aspectos mais amplos da formação e do cuidado com temas cuja responsabilidade é atribuída à família.

Mais uma vez aparecem como principais fontes de insatisfação a falta de interesse dos alunos e da família no processo de aprendizado.

Por outro lado, algumas questões que já foram consideradas mais problemáticas no Brasil, como a merenda escolar ou mesmo as instalações físicas da escola, de maneira geral, são avaliadas positivamente por professores que lecionam nos grandes centros urbanos do país.

Um ponto que não foi apontado como relevante pelos professores, mas surge indiretamente neste estudo e incide de maneira alarmante na condição do trabalho docente, é a questão da disponibilidade de tempo do professor para as várias atividades que seu trabalho pressupõe.

Os professores passam cerca de 29 horas semanais em sala de aula. Para o planejamento das aulas – atividade considerada importante por praticamente todos os professores ouvidos – são reservadas, aproximadamente, seis horas semanais.

Agregadas às demais atividades extraclasse, tais como elaborar avaliações, corrigir trabalhos e provas, realizar reuniões com a coordenação, dedicar-se a leituras e estudos para manter-se atualizado e atender a pais e alunos, o professor tem, em média, uma jornada de trabalho de 56 horas semanais.

A elas deve-se somar o tempo gasto para deslocar-se de casa para a escola e entre as diferentes escolas em que atua: e aí se vão outras oito horas semanais.

Certamente, o que sobra é pouco tempo para as possibilidades de lazer, cultura e de vida pessoal. Um ritmo de trabalho menos exigente talvez proporcionasse uma aproximação maior com os alunos e seus pais. Há uma demanda implícita por mais tempo para o estudo, para manter-se atualizado e para o trabalho em equipe, reconhecidamente eficaz.

A pouca disponibilidade de tempo produz impactos ainda mais dramáticos naqueles professores que atuam no Ensino Fundamental II e no Ensino Médio e têm sob sua responsabilidade direta uma média de turmas muito mais alta do que os professores das crianças mais novas: são cerca de dez a 11 turmas entre o sexto e o nono ano no Ensino Fundamental e no Ensino Médio, ante cerca de duas a três turmas na Educação Infantil e no Ensino Fundamental I.

Essa situação tem reflexo direto no número médio de alunos por professor: 74 na Educação Infantil, 99 no Ensino Fundamental I, 373 no Ensino Fundamental II e 402 no Ensino Médio.

Como ressaltado anteriormente, o nível de satisfação com a profissão é sensivelmente menor entre os que lecionam nas séries mais avançadas e, numa ponderação geral, é no Ensino Médio que encontramos os professores mais críticos, seguidos por aqueles que lecionam no ciclo Fundamental II.

Nesses dois grupos, é possível notar maior dificuldade no que se refere ao relacionamento com os pais de alunos, ao nível de aprendizado e ao interesse do estudante, bem como em relação aos recursos didáticos disponíveis.

A remuneração e benefícios são motivos de muita insatisfação para 44% dos entrevistados do Ensino Médio, o que ocorre com apenas 18% dos que ensinam nas primeiras séries. Essa opinião também é refletida na menor satisfação com o fato de trabalhar na rede pública e na avaliação do sistema de pontuação utilizado para o progresso na carreira ou até mesmo no desejo de maior oferta de cursos gratuitos de aprimoramento.

Já a insatisfação gerada pela grande quantidade de alunos por sala é um problema comum a todas as modalidades de ensino.

Por outro lado, é de se notar a satisfação dos docentes com a própria atuação, o grau de preparo e mesmo com a sua formação inicial, o que contrasta frontalmente tanto com a sua percepção global sobre a escola pública como com os próprios resultados que os alunos alcançam nos exames que avaliam o rendimento acadêmico.

Ao se tomar como parâmetros a idade do professor e a modalidade de ensino, é possível avançar mais na análise dos fatores que motivam a satisfação docente.

O quadro abaixo revela o quanto alguns problemas se agravam na medida em que se avança em direção às séries finais do Ensino Básico, especialmente no que diz respeito ao relacionamento com a família e o próprio aluno. Chega a ser alarmante a distância entre a boa avaliação que os professores fazem do seu trabalho e a responsabilidade imputada ao aluno quando o professor avalia os aspectos negativos da educação, como mencionado anteriormente (Tabela 18).

Tabela 18. Grau de satisfação x Modalidade de ensino (avaliação por conceito 1 a 10)
Tabela 18. Grau de satisfação x Modalidade de ensino (avaliação por conceito 1 a 10)

O professor valoriza muito a sua liberdade de atuação em sala de aula, e considera satisfatório o apoio pedagógico recebido da coordenação e da direção da escola. Embora as deficiências de infraestrutura e recursos didáticos mereçam alguma crítica dos professores, de maneira geral estes são considerados suficientes. Na visão dos professores, não estaria, portanto, nas questões mais diretamente ligadas à escola, o motivo principal para um baixo nível de aprendizado do aluno.

O professor e sua realidade profissional

Na pesquisa, os professores foram convidados a posicionar-se diante de diferentes afirmações relativas à sua realidade profissional (Tabela 19).

Tabela 19. Opiniões sobre a profissão
Tabela 19. Opiniões sobre a profissão

De maneira geral, na Educação Infantil, o perfil profissional do professor revela paixão, mas também aspirações profissionais. Esse docente julga-se bem preparado, tanto no que diz respeito ao conhecimento, quanto em relação à didática. Busca atualizar seu conhecimento e aprimorar sua formação, demonstrando maior interesse em evoluir na carreira, ao ocupar, por exemplo, a função de coordenador.

Em geral, esses professores são mais jovens e, na sua maioria, graduados em Pedagogia, muitos com cursos de pós-graduação na área de educação e gestão. São mais críticos em relação ao apoio recebido da direção da escola e às deficiências de infraestrutura. Identificam, também, com menor frequência a família como um fator crítico. É neste núcleo que encontramos uma menor incidência de problemas de reconhecimento e um maior grau de satisfação com o trabalho.

No Ensino Fundamental I, encontram-se características semelhantes no que diz respeito aos resultados do aprendizado e a satisfação com o desempenho em sala de aula, embora os caminhos para este desempenho sejam um pouco diferentes. A graduação inicial ocorreu em Letras e Pedagogia. A maior parte das professoras é polivalente, lecionando mais de uma disciplina, têm uma idade média mais elevada, e, em maioria, lecionam por mais tempo, valorizando bastante a estabilidade do serviço público.

São apoiadas pela própria família na escolha dessa profissão, mas também sentem que não têm o devido reconhecimento da sociedade. Aqui, a profissionalização também é um tema pouco presente.

Ensinar é visto como uma vocação, e a melhor recompensa seria a do carinho e a do sucesso de seus alunos. Esses professores ressentem-se bastante do que acreditam ser o desinteresse dos pais pelo processo de aprendizado, mostrando-se muitas vezes frustrados com o desempenho dos alunos. De maneira geral, têm uma postura menos crítica em relação com a escola, lidando com mais facilidade com diretores, coordenadores e com questões como programas de inclusão e infraestrutura.

No Ensino Fundamental II, as dificuldades se acentuam: a diferença de nível de aprendizado entre os alunos, o elevado número de estudantes por sala de aula, questões ligadas à violência e drogas passam a fazer parte das preocupações cotidianas do docente.

Nada menos do que 30% dos professores declaram estar expostos diariamente à violência, um número expressivo e preocupante. Por outro lado, o professor sente-se menos preparado para enfrentar a sala de aula. Acha que sua formação não é tão adequada à realidade do aluno, e, apesar de seu esforço e dedicação, nem sempre os alunos aprendem de fato. Tem muita liberdade para exercer sua função e sente menor cobrança da direção da escola em relação a objetivos e metas que devam ser alcançados.

Como requer o currículo, são professores especialistas, mas a sua formação vem principalmente da graduação em Letras, Biologia, História ou outras nem sempre diretamente relacionadas à matéria que lecionam. A sobrecarga de trabalho, muitas turmas, às vezes, em três períodos diferentes, faz com que tenha menos tempo disponível para o planejamento das aulas e o aprimoramento profissional, embora muitos tenham cursado pós-graduação ou uma segunda graduação.

Já no Ensino Médio, embora não na sua totalidade, encontramos um professor com características diferentes. Com melhor formação acadêmica, muitas vezes, esse docente cursou universidades públicas e o ciclo básico em escolas particulares.

Uma parcela significativa vem de famílias com melhor nível de renda e grau de instrução. Tem formação específica em outra área, mas também se sente comprometido com a educação. Tem um bom nível de conhecimento, mas pouca formação didática, o que vai ao encontro das críticas feitas aos programas de formação de professores no Brasil.

Confrontado com a realidade da sala de aula, muitas vezes distante do contexto social onde foi criado, esse professor sente dificuldade para ensinar. É o mais questionador em relação ao pouco apoio existente para lidar com os graves problemas sociais que existem no ambiente escolar. Por outro lado, é menos envolvido com as instituições do ensino público e mais insatisfeito com a sua remuneração. Isto não quer dizer que não se sinta envolvido com o processo de aprendizado. Como os demais, dá grande valor à sua função social. Embora se declare satisfeito com a profissão, é o que mais contesta as deficiências do sistema.

Enfim, para fazer uma síntese válida para a média dos entrevistados, é possível dizer que as respostas confirmam posições já descritas anteriormente: o orgulho e o amor à profissão e o reconhecimento da sua importância social se mostram, mais uma vez, valores incontestáveis. Também fica claro que a decisão de ser professor, na maior parte dos casos, é fruto de um desejo pessoal, e não apenas de uma necessidade econômica.

Os dados levam a crer que o professor gosta do que faz e manifesta muita dedicação e comprometimento com seu trabalho, sentindo-se, muitas vezes, frustrado e impotente quando os resultados de aprendizado não são alcançados.

Nesse quadro, o docente assumiria responsabilidades que considera não serem atribuições suas, o que possivelmente influenciaria seu bem-estar físico, gerando estresse. Responsabiliza, em parte, a família pelo baixo rendimento do aluno, a qual se mostra, a seu ver, pouco interessada e participativa.

Do ponto de vista pedagógico, os professores sentem-se capacitados e com boa formação, embora muitos concordem que aprenderam como ser professor na prática. A atuação da direção e de coordenadores é vista como fator fundamental para o bom desempenho do trabalho e, de maneira geral, é bem avaliada.

O professor sente orgulho da sua profissão, mesmo que não se sinta reconhecido pela sociedade. Para ele, fazer parte da rede pública de ensino é uma conquista. Comprometido com sua função social, acredita estar contribuindo para a formação de cidadãos mais preparados. Não se considera responsável pela baixa qualidade da educação pública no país e tampouco admite que a sociedade lhe dê esta culpa. Talvez por isso, seja exagerada a boa avaliação que faz do próprio desempenho. Dedicado, busca o aprimoramento profissional.

Ainda que os dados de realidade indiquem que os docentes brasileiros não sejam realmente tão bem preparados quanto acreditam, parece inegável que estão comprometidos com a escola, apesar de todas as dificuldades.

Sumário

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