
1. Introdução
Este texto apresenta os resultados da segunda fase de uma pesquisa3, cujo principal objetivo foi identificar e analisar os processos de coordenação pedagógica, em curso em escolas de diferentes regiões brasileiras, de modo a ampliar o conhecimento sobre o CP ou função semelhante, quanto às suas potencialidades e limitações, e, com isso, subsidiar políticas públicas de formação docente e organização dos sistemas escolares.
Para tanto, buscamos compreender como se estruturam e se articulam as atribuições de coordenação pedagógica, em escolas de Ensino Fundamental e Médio, analisando as características do perfil do coordenador pedagógico, e suas percepções, assim como as de diretores e professores, quanto a: adesão/ rejeição às atribuições da função, dificuldades decorrentes do funcionamento e organização da escola e da formação profissional do CP e dos professores que coordena, partindo do pressuposto de que o papel central do CP é o de formador de seus professores. O eixo teórico condutor de nossas análises é a constituição da identidade profissional, postulada por Claude Dubar (1997).
Importa considerar a visão de escola que está na base de nossas explicações e reflexões aqui apresentadas. Dois pontos precisam ser enfatizados: não se pode falar de escola, genericamente, mas de cada escola em particular, dado que cada uma tem características pedagógico-sociais específicas. E há a necessidade, para superação das dificuldades cotidianas da escola, de um trabalho coletivo, o qual exige, por sua vez, a presença e atuação de um articulador dos processos educativos que ali se dão. Esse articulador precisa agir nos espaços-tempos diferenciados, seja para o desenvolvimento de propostas curriculares, seja para o atendimento a professores, alunos e pais, nas variadas combinações que cada escola comporta.
Pensar os atores dessa escola singular - gestores, professores, auxiliares de apoio e alunos -, em suas relações com as questões do cotidiano escolar, do currículo, das relações interpessoais e pedagógicas, implica considerar as subjetividades em relação e a necessidade de formação, tendo em vista um instituído que lhes é apresentado como dado e que, frequentemente, não responde às suas necessidades, expectativas e aspirações. É nesse contexto que situamos o CP como ator privilegiado em nossa investigação, por entendermos que ele tem, na escola, uma função articuladora, formadora e transformadora e, portanto, é o profissional mediador entre currículo e professores e, por excelência, o formador dos professores.
Ainda que tenha aumentado o número de pesquisas que abordem a coordenação pedagógica em vários aspectos, apresenta-se como desafio caracterizar e analisar a atuação desse profissional nas diferentes regiões do Brasil, de modo a acessar as especificidades relativas aos diferentes contextos da Educação escolar nacional. Assim, a pesquisa que ora apresentamos investigou a coordenação pedagógica nas cinco regiões do país, nos seguintes estados e cidades: São Paulo (SP), São Paulo; Paraná (PR), Curitiba; Acre (AC), Rio Branco; Goiás (GO), Goiânia; e Rio Grande do Norte (RN), Natal. Em cada uma das cidades, foram selecionadas quatro escolas - duas da rede municipal e duas da rede estadual, um coordenador, um diretor e dois professores de cada escola, perfazendo o total de 16 informantes da pesquisa por região e 80 no total. A pesquisa foi realizada em quatro etapas, que forneceram elementos para o texto a seguir, quais sejam: estudo de literatura especializada, revisão da produção em pesquisa, levantamento da legislação de cada região e construção de um quadro inicial dessas informações, para elaboração do referencial teórico e dos instrumentos de coleta de dados; elaboração dos instrumentos de coleta de dados - questionários e entrevistas; aplicação dos instrumentos e relato descritivo dos resultados; organização dos resultados, com vista à elaboração e discussão dos dados.
Desse modo, o texto que ora apresentamos se organiza em três partes. A primeira - Parte I - O trabalho do CP e a constituição de sua identidade profissional - apresenta abordagens sobre o trabalho do CP na literatura especializada no Brasil e em outros países, em textos e pesquisas sobre o tema no Brasil, na legislação; alguns dos principais conceitos teóricos de Dubar (1997), os quais sustentam nossas análises sobre a constituição da identidade profissional do CP, além de breve apresentação da primeira fase da pesquisa, estudo realizado por Fundação Victor Civita (FVC) - Estudos e Pesquisas Educacionais -, Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope) Inteligência e Fundação Carlos Chagas (FCC). A segunda parte traz a apresentação e a discussão dos resultados, com base em categorias que foram sendo construídas ao longo da elaboração da pesquisa. A última parte apresenta nossas conclusões, incluindo as sugestões de especialistas sobre os seus resultados.
1. Neste relatório, serão usadas as terminologias: Coordenador(es) Pedagógico(s) ou Coordenadora(s) Pedagógica(s), com a sigla CP. A denominação para a função do que estamos chamando de Coordenador Pedagógico é diferente a depender das redes de ensino (municipal ou estadual) ou das regiões do Brasil. São elas: professor-coordenador, orientador pedagógico, pedagogo e supervisor pedagógico.
2. Este estudo foi realizado pela Fundação Carlos Chagas (FCC) sob encomenda da Fundação Victor Civita (FVC).
3. A primeira fase da pesquisa, realizada em 2010, procedeu um levantamento quantitativo, envolvendo 400 CPs de 13 estados brasileiros. Breve relato descritivo encontra-se a partir da página 21 deste relatório e o relatório completo pode ser acessado em . Esta segunda fase compreendeu um aprofundamento da análise, aplicação de questionários e entrevistas e painel de especialistas, como apresentado e descrito neste relatório.
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